14.4.12

Mais uma vez ele explicou para Layla que não poderia levar seus tão amados bolinhos de cenoura. No espaço essa comida poderia ser fatal. Seus olhos percorreram a casa novamente, pousando por um tempo maior sobre um porta retrato que estava em cima da cristaleira. Soltou o suspiro que estava preso no peito e antes de ir, mais um beijo na esposa.

Dentro de um vestidinho de chita, saiu correndo Jéssy do quarto com um papel branco na mão.
- Papai. Só é pra abrir quando o senhor estiver lá em cima. - E guardou no bolso de Tom.
- Dá um abraço no papai! Jogou-a no alto. Ela adorava isso. Os olhares de Tom e Layla se cruzaram uma última vez. E ele se foi com o serviço secreto.

O vidro escuro do carro refletia os gramados, as árvores, as crianças e o rosto estranhamento expressivo de Tom. O carro encosta. Tom salta e corre para dentro do prédio imenso. Do vestiário podia-se ouvir o barulho dos jornalistas questionando, inferindo, inventando.

Aos poucos a roupa pesada de Tom já estava vestida. Com uma leve dificuldade, levantou-se. E pé ante pé, caminhou os 200 metros que o separava do seu veículo.

- Controle da Terra para Major Tom. Controle da Terra para Major Tom.


au revoir mortais

O último post

Hoje, depois de seis meses, tive sono. E enquanto me arrumava para dormir me dei conta de que esta seria a última noite que dormiria como pombalino. Não podia deixar de escrever sobre esses quatro anos mesmo sem saber exatamente sobre o quê escrever.

Em termos eclesiásticos foram quatro anos bem produtivos. Conheci muita coisa sobre o funcionamento interno da igreja. E cheguei à conclusão que o cara da salsicha tem razão: Melhor não saber como é feito. Mas cá entre nós, talvez esse seja um dos grandes problemas da igreja hoje: as pessoas não conhecem os seus processos. Mas enfim... Estive acompanhado de bons pastores e de pastores que... bem... deixaram a desejar (no meu ponto de vista, claro). Lavei, passei, cozinhei e dei banho em um... E por acreditar que este não seria o meu trabalho, levei bronca de outro. Conheci um pastor que gostaria de eliminar todas as festas mundanas da Igreja. Começando pela páscoa (???). Conheci um pastor que me curou, conheci um pastor que me pastoreou e conheci um pastor que, na semana mais importante da minha vida, quando dúvidas cercavam meu coração, me chamou de fracassado e mentiroso. Se ele tem motivos para isso? Estou mais do que certo que não. Mas faz parte do aprendizado.

Conheci gente feliz, gente amargurada... que queria viver e outras que não suportavam mais a vida. Conheci gente corajosa e também conheci gente medrosa. Gente que tinha audácia! E gente que tinha pânico. Analfabetos, estudantes e doutores eu também conheci.
Do mundo, Gente da Alemanhã, de toda México, Chile, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Equador, Costa Rica, Cuba, Estados Unidos, Canadá, Índia, Moçambique, Angola, Holanda, Noruega, Irlanda, Inglaterra, Itália, Israel... e tantos outros países com quem eu apertei a mão e com alguns até tomei café!
Conheci gente de todo jeito e lugar.

Vi os reflexos de um Concílio Geral e a espectativa de outro. Vi um bispo se aposentar, Vi outro se eleger; vi um bispo morrer e, creio eu, vi outro nascer. Também vi como se elegem através do voto.

Vi, ouvi, senti em todos os meus póros a encarnação da madame saudade. Vi homens e mulheres chorar por causa dela, Madame Saudade.

Aprendi muito com as aulas; aprendi muito com a igreja; aprendi muito com a faculdade. Aprendi e descobri que todo mundo é louco - a começar pelos pastores. Que todo mundo é doente e que todo mundo é uma casa de paredes coloridas e bobo é quem pensa que somos monocromáticos!

São quatro anos que deixam saudade. Tanta saudade que eu não consegui terminar este post quando o comecei. E só hoje, quase quatro meses depois, eu consegui.
Foi um bom período. Fiz amigos e também inimigos. Mas não vou eternizá-los com palavras. Decidi hoje que vou guardá-los até quando minha memória permitir lembrar. Do que não vou esquecer mesmo são das pessoas e do bem e do mal que nos fiezemos.



au revoir mortais

Mudanças


Hoje bateu uma nostalgia daquelas.
E daí fui olhar os álbuns que tenho nas redes sociais. Facebook e Orkut (sim, ele ainda resiste). E fiquei pensando em como as coisas mudam. Amores, sonhos, vontades, vícios e virtudes. Tudo muda. Lembro que a um tempo atrás eu postava quase que diariamente neste blog - que ainda não era aqui, era hospedado no weblogger, do Terra, e que sumiu com todo aquele passado. Hoje, se muito, uma vez por mês e olhe lá!
Este blog sempre foi meio que a minha terapia, sabe? Escrevia aqui várias coisas e sobre diversos assuntos. Quando a maioridade se aproximou, virou meu canto de lamento dos amores que tive e não tive. Naquela época eu ainda tomava um ônibus para voltar pra casa e aproveitava para ouvir o que as pessoas conversavam dentro do ônibus. Sempre gostei de histórias de vida. Não que elas sejam interessantes de fato, mas porque gosto da sensação de me ver nos outros.

Lembro ainda hoje da manhã chuvosa de sábado quando enviei por correio os meus documentos para o seminário regional. A gente estava no encerramento do "Ao vivo", um evento "ecumênico" onde bandas se reuniam em diversas igrejas pra juntar a juventude durante as férias. No palco estava sendo apresentada uma peça escrita por mim. Por força da pressão dos demais, acabei incluindo uma pantomima (não gosto de pantomima de crente)... Mas até ficou legal! Muito evangelical, com certeza, mas esta era a minha cabeça na época... Que aliás, quantas voltas? De quase ateu para fundamentalista, para evangelical e agora para esta metamorfose sem nome e etiqueta... que me permite experimentar Deus de uma forma muito mais presente e táctil. Mas enfim...

Entre uma das fotos vi o meu capacete, a mala da moto, minha mochila cheia de bottoms e a capa do meu violão. Todo final de semana era uma viagem. Acordava cedo, me lavava, aparava a barba, experimentava mil roupas e saía pra viajar... E a cada três meses, eu arrumava mesmo as malas, cantava minha música e rumava pra Franca na minha CG 150cc... Que saudade dela! Minha primeira moto! Como fiquei orgulhoso dela! Eu viajava pra lua com ela! Foi no lombo dela que eu, pensativo no sinal de trânsito dei meia volta, pulei o muro e bati em uma janela às duas da manhã...

Eu morava no quarto 23. Acordava todo dia às 6h30 da manhã e saia da cama às 7h20 rsrsrs. Meu maior desafio era mantê-lo arrumado. Era um quarto, uma sela, uma casa... Quanta coisa aconteceu naquele quarto. Planos, sonhos, desespero, dor, lamento, alegria, celebração, amor! Eu pensava que a vida seria de um jeito, que as pessoas seriam de um jeito... Mas estava enganado. A flecha do tempo descortina aos poucos a realidade. E eu não me surpreendo e nem me entristeço em relação a isso. É apenas o dia que se deve viver. Só. Não é o Pombal em si que dá saudade. Mas o estilo de vida que se levava lá. Apesar das perseguições, das mentiras e enganações, haviam os momentos com os amigos e as aventuras imaginárias. Eram bons momentos que suplantavam toda dor. Até lamentar com os companheiros era bom!

Era uma vida mais ou menos completa. Eu "cuidava" de uma comunidade, eu estudava de manhã e pesquisava à tarde. Saia com os amigos às vezes (poucas, porque nunca tínhamos dinheiro) em pobres passeios pobres em São Paulo. Tinha alguém que supria a minha carência afetiva e amenizava a saudade de casa. Sonhava em como seria o HOJE. E olhando os meus álbuns novamente, percebi que alguns foram simplesmente apagados.

Olhando para os meus álbuns hoje, percebo que as coisas mudaram. O quarto 23 transformou-se na casa 73... A rua do Sacramento agora é rua Ouro Verde. Quando chove, não é mais o estacionamento do pombal que alaga, é a minha rua. O quarto que vivia cheio de amigos é a casa ocupada por mim e pelo Max, meu cachorro. Agora tenho fotos do Dia do Pastor e não do Dia do Seminarista (dia que me trás boas e tristes lembranças); agora não tenho fotos da igreja onde sou o seminarista ou o pastor ajudante... As fotos são da Igreja onde sou o Titular... da congregação que está sob minha responsabilidade. Não tenho mais fotos com a minha família; tenho fotos com a minha comunidade. Não tenho fotos sorrindo com a minha namorada; agora tenho fotos com o meu cachorro rsrsrs. O que eu quero comprar não é mais aquele notebook "da hora" ou uma câmera fotográfica. Quero comprar uma cama, um rack pra minha sala... todas aquelas coisas em que eu não via tanto sentido quando era criança. E não quero essas coisas porque nutro sonhos bobos de um casamento pra amanhã.... Mas porque quero ter um lugar aconchegante pra chamar de lar.

Lembranças... Elas são boas! Espero que eu nunca as deixe pelo caminho.
Lembranças... As que vivemos são sempre boas! As que queríamos ter vivido... estas não. Estas confundem, magoam e nos prendem ao passado. Melhor é viver a sinceridade de cada dia. Cada dia que se vive é uma lembrança que se guarda pro futuro.

Não sou mais o de ontem ou de 4, 7, 10 anos atrás. Muita coisa passou, muita coisa mudou... Estou entrando em outra fase... Um tanto dolorida, eu assumo, mas necessária.
Que Deus me ajude a escrever uma nova história e que lembrar me traga apenas saudade.

au revoir mortais

17.2.12

Só hoje

Olá
Depois de muito tempo, só hoje eu tive certeza que a coragem para postar esta letra era suficiente.
Agora estou certo de que não me arrependerei de dizer estas palavras. Ou cantá-las.



Falta-me o ar
Falta-me a razão
Esconderam as palavras
Falta-me a canção

Deixa eu chorar
E gritar toda dor
Jogar fora no ar
Esquecer este amor

Nem mais um beijo
E eu vou te esquecer
Não mais desejo
Desejar te querer

Só hoje não
Gritar teu nome
Para espantar
A solidão

Vou te guardar
No pensamento
No lugar reservado
Ao esquecimento.


au revoir mortais

2.12.11

Então, pequena, boa noite

Já está escura a noite. Todos já se foram dormir. Se você está acordada e boas meninas não ficam acordadas até tão tarde.
Então, pequena, boa noite.
A cama está te esperando. Edredons, colchão e lençóis de seda. A este convite, quem poderá recusar?
Então, pequena, boa noite.
Veja que gostoso é: O ventinho frio entra pela janela, perfuma o quarto com cheio de terra molha e a criação vem te dar, no orvalho, os beijos que não te dei. Sussurrando te diz o rouxinol:
Boa noite, pequena.
Se o dia foi amargo e cruel, não se preocupe. Deite-se na cama, cobertor até o pescoço. Te dou um beijo no rosto, o meu feitiço de dormir.
Então, pequena, boa noite.
Seus olhos fechados, seu rosto plácido, seu peito arquejando de vagar. Com o quê será que ela sonha? Eu não sei. Mas que sejam sonhos de paz.
Então, pequena, boa noite.
Que anjos te guardem e que ao acordar, que a esperança possa te ajudar a ver este mundo.
Então, pequena, boa noite. Um beijo e um queijo e até amanhã.

au revoir mortais

29.11.11

Por quê Deus é uma mulher

Ela chega de mansinho como quem não quer nada. O sorriso no rosto guarda um segredo... Oculto, ofuscado pelo sorriso... Há um molejo de coisa qualquer no jeito que ela anda, no balanço dos braços, nas idéias dos olhos... E eles também guardam um segredo, encondido entre a música e o silêncio, entre o agora e o logo mais.
Seus dedos nos desafiam ao toque, sua mão quer ser tomada de assalto, sua boca quer ser beijada... Mas o medo nos impede de tentar. Se ela não quiser, se ela não deixar?!
Daí os olhos do ser procuram encontrar pistas que possam escapar de um sorriso, um olhar, uma companhia...
Quando Ela te beija, você é tomado de um enorme êxtase! Cada beijo um salto, cada carinho uma cartasse. O beijo transforma a vida. Depois do primeiro beijo em uma mulher, o desejo é de arrumar o quarto, arrumar a casa, comprar um carro e mudar o mundo. Depois do primeiro beijo vem o segundo e com ele a mudança de vontade de mudar o mundo. E você descobre que o medo era, na verdade, respeito, e que na verdade o amor era mútuo e você poderia ter dado o primeiro beijo muito mais primeiro.

Quando os beijos não mais se contam, apenas se beijam, Ela decide se "amarrar" - porque essa decisão é dela e não nossa. E você vive uma vida junto. Sofrem juntos, passam fome juntos, choram juntos... mas também sorriem juntos, tem filhos e filhas juntos, sonham e fazem os sonhos verdade em conjunto. E um dia de manhã você vai dizer pra si mesmo: Eu a conheço, sei tudo sobre ela.

Nesta hora então, você a verá acordar, Ela te olhará nos olhos, e com um sorriso suspense dirá: Bom dia, amor. E você vai reencontrar o segredo de outrora; aquele mesmo ofuscado e escondido por um sorriso, e como louco vai querer descobrir de novo o segredo que quanto mais se sabe dele, menos se sabe sobre ele.


au revoir mortais

25.11.11

Passado

Hoje eu tive uma brevíssima visão do passado. Entre a penumbra, diga-se. E Deus... como mexeu comigo! Faltou-me o ar até.


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1.11.11

Meu erro

Eu errei.
E meu erro foi ter amado demais, mais do que havia amado antes.
Meu erro foi ter confiado em meus instintos e ter me entregado de corpo e alma a este amor. Amor que foi me conquistando, me envolvendo, dizendo em atitudes que era para sempre. Mas condlfundi hospitalidade com eternidade.
Meu erro foi ter sonhado mil sonhos em mil possibilidades. Foi ter sonhado contigo doutora, foi ter sonhado contigo mãe, foi ter sonhado com o fim da vida, pés estirados no sol poente, teu sorriso cansado de ser tão feliz na vida.

Mas não eram sonhos que você queria. Era apenas um momento. Para quem nao quer compromisso, sonhos são pesados. Sufocam. E assim eu fui trocado por algo mais belo e sem sonhos.

Preciso, portanto, aprender a sonhar sozinho, a não amar tanto e ... a ser feliz sozinho.

Minha meta para o novo ano é ser feliz.


E fazer academia.
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29.10.11

Sorria

Sorria.

Sorria todos os risos que me levou, sorria pela graça que havia em mim, sorria pelo azul que tornou-se cinza.
Sorria.

Sorria todos os meus anos roubados, as festas perdidas, os dissabores encontrados. Sorria em meu lugar os motivos pra sorrir que você levou. Sorria!

Sorria sim, bêbada do meu sangue que tomou. Sorria minhas lágrimas de tira-gosto. Sorria o meu medo da vida e o meu gosto da morte. Sorria!

Sorria a minha solidão e o seu carnaval de amigos. Sorria a minha infelicidade e a seu esquecimento. Sorria sim, a sua superação e sorria o que você deixou pra mim. Sorria!

Chegará um dia em que sequer lembrará meu nome. Não seja tola, vai chegar. E então você vai sorrir a infantilidade que viveu e tanto valor deu. Sorria!

Eu ainda vou sorrir. Quando eu praticar o desapego e te ver pelas costas, indo embora, sem dizer adeus.
Você nem vai ligar. Só vai sorrir. E quem sabe também eu.

Sorria.

au revoir mortais

Ai

Estou aqui.
Falta-me o ar nas narinas, os olhos não vêem o que enxergo, o medo toma conta de mim.
Faltam-me forças e é por isso que estou prostrado, jogado ao chão. O tino está sem tento. Os sonhos? Se esvaíram como fumaça levada pelo vento. Restam lembranças apenas das sombras impressas nas paredes.

Faltam-me tudo. Falta-me até você.

Não sei se posso, não sei se consigo viver estes momentos de noite escura. Eu preciso de você.
Por favor, fala comigo. Tira-me deste lugar escuro e úmido onde estou.
Deixa-me ouvir sua voz de novo, trazendo alento para minhas noites escuras. Deixa-me sentir sua mão afagando o meu cabelo... Deixa-me te amar, não como antes. Deixa-me te amar tranquilo, sereno... Quieto. Dizendo te amar apenas com os olhos.

Não deixa o tempo apagar o que aconteceu. Deixa o tempo dizer, provar, que ainda é possível haver amor onde antes transbordava. Permita-se viver a calma e a aventura a dois, do meu lado. Ainda quero te apresentar os céus e te dar as estrelas; ainda quero te levar a um campo de flores para que elas morram de ciúmes de ti. Dê uma change ao seu sentimento que ainda geme calado a minha falta.

Fala comigo. Me tira daqui. Me deixa ouvir tua voz. Não me deixa... Ainda que pareça tudo errado.
au revoir mortais